domingo, 11 de abril de 2010

Be somebody

Como um gato perdido em meio ao trânsito caótico, ela andava nas ruas. Olhava as pessoas com a curiosidade de um bebê que acaba de descobrir uma cor nova, e com o medo de uma criança ao ver uma cinta. Entre os semáforos e as esquinas, seus pés descalços pisavam o solo quente, “Onde estou? Onde estou?”, martelava a pergunta em seu pensamento, juntamente com suas mãos, que faziam questão de baterem em sua cabeça, como se fossem, assim, trazer algum tipo de lembrança de volta. Suas lágrimas haviam acabado de tanto chorar, há dias seguidos. Sem dormir, no frio e na escuridão solitária da noite, e sem conseguir se manter completamente lúcida na claridade e movimento do dia.
Seus trajes sujos tinham contraste com a pele branca, por mais suja que essa parecesse. As pessoas a olhavam como se olha um animal deitado na rua, com desprezo. Algumas a olhavam curiosos, e alguns até a cumprimentam, mas os rostos não se faziam conhecidos.
- Onde estou? – Perguntava ela com tom de desespero às pessoas que na rua andavam. Tão sozinha, tão vazia. As lembranças lhe foram tiradas, e ela nem ao menos sabia o motivo. Ouvia sons conhecidos, que não conhecia. Vozes que acabara de ouvir, vozes sem rosto, vozes sem voz. Perfumes e aromas que estavam ali, mas não os conseguia identificar em meio a mente vazia. O desespero daquilo que lhe assombrava e estampava seu rosto. Aconteceu, mas nunca aconteceu antes.
Talvez fosse tudo um sonho, e era isso que esperava: acordar. Mas nem ao menos sabia como era dormir, e sonhar. Há dias não dormia, e de tanto roncar, fome seu estômago já não sentia. Perdida em perguntas, em palavras que ela sabia que existiam, mas nunca foram ditas. E aqueles olhares que a julgavam...
Correu.
Correu pra longe, correu pra lugar nenhum. Correu pela ponte, pela esquina. Derrubou algumas pessoas, até mesmo uma criança. “Desculpa”, saiu automaticamente de sua boca, mas nem ao menos sabia se conhecia essa palavra. Então continuou correndo, até seu coração saltar de seu peito e suas pernas quase desencaixarem de seu corpo.
Raiva.
Ódio.
Em qualquer lugar, num lugar qualquer, que estava lá, mas nunca esteve, ela entrou. Prateleiras, ela sabia o que eram, pronunciou em voz alta. A lembrança quis vir, mas foi embora antes de chegar. Então suas mãos entraram em ação, expressando o ódio que sentia. Quebrando o que havia em volta. E os olhos que antes a julgavam, agora a condenavam. “Louca!”, exclamavam. Condenavam. Apontavam. E ela continuava a derrubar as coisas, quebrar, jogar, como um animal furioso. Urrando as palavras que saíam em forma de grito: “QUEM SOU EU?”, diversas vezes as mesmas palavras, e gritos em seguida. Aconteceu, mas nunca aconteceu. Então o choro veio novamente, e o ódio se transformou em dor quando encolheu o próprio corpo, tentando se lembrar. Mas a dor foi embora quando aqueles braços a envolveram. “Vai ficar tudo bem”, aquela voz ela conhecia. Reconhecia. Aquele rosto, aqueles olhos. E o amor lhe tomou. Não sabia da própria origem, mas a dele bem sabia. E o que sentia, sabia que era amor. O único que poderia salvá-la. E ela se deixou levar, agora como o gato acolhido num lar seguro. “Calma, eu estou aqui”, e seu corpo desmoronou de fraqueza nos braços daquele que ela reconhecia.


Nobody knows, nobody sees;
nobody but me... (♪)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Blue or red? Or purple? Or...

Como diria a velha e famosa "Lady Murphy": "nada é tão bom que não pode piorar". Bem, dela, eu tirei a minha "nada é tão ruim que não possa ter seu lado bom". Muitas das coisas que escolhemos pra nossa vida começam a ser feitas ou construidas com planos, e essas que planejamos, começamos sempre com vontade. Ou seja, no começo, tudo é muito bom. Visto de longe, as coisas sempre parecem menores, o que nos levam a achar que os problemas também são menores. Porém não levamos em consideração que estamos vendo de longe. De fora, tudo parece solucionável, fácil, chegamos até nos questionar coisas como "Como ele não consegue fazer isso?". E uma das minhas filosofias de vida é "Não julgue até trocar de lugar". Qualquer um pode resolver um problema quando não faz parte dele e, consequentemente, não o leva para o travesseiro antes de dormir, não passa noites em claro pensando em como resolvê-los, não sente aquele nó na boca do estômago ao pensar no tal problema durante o seu almoço, janta, café da manhã; isso, é claro, quando se atreve a comer, ou quando se tem fome pra mim. Quem vê de fora tem uma visão ampla e tempo suficiente para analisar os prós e contras; não precisa perder noites de sono por isso e nem se preocupar em como vai resolver. É apenas um problema de outra pessoa. Essa é a tênue diferença entre quem passa por um problema e quem o vê de fora.
Tudo parece simples, bonito, lidável (não sei se isso existe, derivado de lidar, é) quando olhamos à distância. O sol é do tamanho de uma bolinha de gude para nós e é agradável ter um dia ensolarado. Mas vá viver em Marte, onde o sol é um tantinho maior do que uma bolinha de gude, e me diga se é tão agradável assim ter um dia de sol. É, uma metáfora barata.
Baseado na minha experiência errante de vida, tenho pra mim que, em determinado momento, todo mundo vai querer voltar a olhar de longe, ser ignorante em relação a algo, não ter conhecimento do que certas coisas realmente significam, pois ninguém gosta, realmente, daquilo que dá real trabalho. É mais cômodo viver na fantasia de que tudo é tão simples quanto imaginamos. Bom, caro leitor, enrolei todo esse tempo para dizer: faculdade, terminantemente, não é aquilo que parece. O fato de ser a melhor época da sua vida, não faz dela algo simples. Muito pelo contrário, eu diria. Durante todo o ensino médio, você se perguntou "Pra quê eu vou usar isso na vida?", eu gostaria de saber, assim como gostaria que aquele fosse o único conteúdo em relação ao qual eu teria de fazer essa pergunta a mim mesma ou a algum colega de sala ao meu lado. Durante a faculdade, achamos a resposta para a primeira pergunta, mas como diria o comercial da Futura "Como você pode ver, o mundo não é movido de respostas", e quando se acha a resposta de uma pergunta, por trás delas vêm outras como "Porque essa escolha?", "Quando foi que decidi isso?", "Porque estou fazendo isso?", "O que eu estou fazendo aqui?", "Porque não estou viajando o mundo?", "Pra quê estudar?" (Ok, essa nos perguntamos a vida toda), ou se pergunta o porque de não estar fazendo outro curso, dentre tantas outras. Hoje, o que eu sei, é que faculdade não é o que parece. Não é tão simples quanto alguns fazem questão de mostrar, e nem tão complexo quanto outros pintam. Não é só festa como a maioria teima e tampouco você vai fazer tudo aquilo que nunca fez antes de entrar pra uma universidade. Algumas coisas mudam, algumas atitudes. As tribos são completamente diferentes daquelas que estamos acostumadas no colegial, algumas pessoas ainda serão muito mais cruéis ao te julgar por aquilo que aparenta, porém, a maioria, realmente não vai se importar. O primeiro dia parece um campo de batalha, e você espera por ataque de todos os lados, pois está lá no meio, vulnerável. Esquecendo-se de que todos já passaram por aquilo, e além de você, outras muitas pessoas também estão vulneráveis, ou seja, não está tão só assim.
Depois que o susto maior passa, chegamos a nos enganar, imaginando que não haverá mais pressão em relação a estudos. Afinal tudo o que estudamos na faculdade é relacionado aquilo que escolhemos. Cuidado! Não se deixe enganar por esse pensamento completamente mal formulado. A pressão vai ser maior do que aquela que sofríamos em relação a vestibular. Os dias passam rápidos, já escolhemos o que queremos pra vida toda, agora é hora de arrumar um emprego e, mesmo acabado de pular de seus 18 para os seus 19, já é tarde pra trocar de opinião. Uma vez a pedra lançada, não tem volta. Ainda mais no quesito "não decepcionar pais e afins".
Todas aquelas perguntas que surgem depois de achar a resposta da "Pra quê vou usar isso na vida?", não se tem resposta. Eu ainda não tenho, e nem ao menos sei se terei até o dia em que eu estiver na minha festa de formatura, mas sempre que algo parecer difícil, ou até mesmo impossível. Todas as vezes que eu pensar que o meu limite, com x tendendo ao infinito, é zero (piadinha interna de matemático), vou me lembrar do quão feliz eu fiquei quando, mesmo assustada, coloquei os pés na sala de aula pela primeira vez, e como fico fascinada a cada explicação esdrúxula que temos em sala de aula. Por mais impossível que pareça, eu não sei porque, ou até mesmo pra quê, só sei que eu quero.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Fighting and missing...

- ME DEIXA! – Gritei e sai da sala, entrando no quarto e batendo a porta com toda a força.
Ele ficou lá, com aquele olhar de quem tinha a razão e murmurou algo, mas eu fingi que não ouvi e me joguei na cama. O problema é que, entre nós, a maioria das vezes é ele quem tem a razão, e eu não suporto o fato de estar sempre errada. Mas isso é o meu orgulho falando mais alto. Bem que quando dizem “Mulheres...” seguido de um suspiro, daquela maneira que querem dizer “animais indomáveis e incompreensíveis”, estão certos. Apesar disso e de ele ter a razão, ele sabia que eu estava na TPM, eles sempre sabem, notava o cheiro de TPM uma semana antes dela chegar, e ainda assim procurava me provocar no pico da minha irritação, depois ria com aquele modo de desdém. Claro, ele sabia que eu chegaria mansa pedindo desculpas depois. E não demorou muito...
Virei-me na cama e olhei para trás, aparentemente estava tudo calmo, e só conseguia ouvir o som da TV. “Hunf, que durma com a TV essa noite...”, pensei comigo imediatamente. Se ele não estava me importando, porque eu estaria? O problema é que eu estava me importando, então liguei o som, para ver se conseguia deixá-lo enfezado. Ele nunca fica enfezado, eu me descabelo, grito, berro, bato o pé, gesticulo, e ele não move nem mesmo um fio de cabelo. Talvez por saber que eu sou louca.
Como ele não cederia, liguei Kings Of Leon, queria deixá-lo morrendo de vontade cantar comigo e não poder, e acertei em cheio. Ouvi o som da TV aumentar consideravelmente e então aumentei mais o som, cantando alucinadamente no quarto. Mas um silêncio se fez na sala, e quando mudou de uma música para outra, tomei a brecha pra pausar o som e ouvi a porta da sala batendo. “MEU DEUS! Ele me abandonou! Descobriu que sou louca de vez!”, pensei imediatamente, sentindo meu coração gelar e como se minhas pernas não pudessem agüentar meu corpo. Sai em disparada do quarto, e a maçaneta fez questão de emperrar bem naquela hora. Bati o dedo do pé na quina do sofá e tentei abrir a porta da sala que, obviamente, ele havia trancado pra dificultar que eu fosse atrás dele. E, bom, vocês sabe, bolsa de mulher é sempre o caos, mas nunca achei algo dentro da minha bolsa tão rápido como naquele dia. Abri a porta e sai correndo para o elevador, e ele já havia descido. Meus olhos se encheram de lágrimas na hora e eu apertei minhas mãos contra meu peito. Respirei fundo, tentando não entrar mais em pânico do que já estava e então ouvi uma risada atrás de mim. “Ele não...”, não tive tempo de concluir meu pensamento e o avistei ao lado da porta do apartamento. O olhei como quem queria fuzilá-lo e ao mesmo tempo com todo o amor do mundo. Dei alguns passos até ele, que permanecia rindo com aquele sorriso encantador, o qual foi a primeira coisa que reparei nele quando nos vimos pela primeira vez.
- Um dia desses você ainda me mata. – Eu disse tentando conter meu sorriso e ao mesmo tempo minhas lágrimas, sem dar tempo para que ele respondesse, joguei o corpo contra o dele e os braços ao redor de seu pescoço, beijando-o de maneira tão apaixonada quanto fazia sempre. Ele, por sua vez, retribuiu. Sabia que se não retribuísse eu o tentaria até o fazê-lo. Depois nos abraçamos e eu disse que o amava.
- E eu amo você, pequena. – Respondeu ele ainda com aquele sorriso de deboche no rosto, o mesmo da hora em que me viu quase morrer do coração em frente ao elevador.
- Desculpe a minha loucura, você sabe...
- Já me acostumei.
- E faz de propósito...
- Sim, isso você um dia se acostuma.
- Se eu me acostumar, perde a graça. – Respondi beijando-o novamente em seguida e fomos para dentro.
E a noite foi mais longa do que imaginamos, detalhes que não precisam ser mencionados, que eu apenas lembro como forma de tentar sentir menos falta dele, afinal meu travesseiro não tem braços para me amparar enquanto ele não está aqui.
Casais tem brigas, afinal, mas quando ficam distantes, dá um aperto, uma dor, e vem aquele arrependimento “Não deveria ter brigado com ele justamente hoje”, mas nunca sabemos quando acontecem imprevistos. E agora só me resta tentar afastar a saudade, terminar o último bombom da caixa e esperar enquanto ele não chega. Talvez seja hoje, ou amanhã, ou enquanto estou dormindo. No meio de um soluço, um piscar de olhos ou uma simples refeição; entre uma música e outra, um sorriso, uma lágrima, ou um grito. A única certeza é de que ele volta. Volta pra matar minha saudade e me deixar mais uma noite sem dormir. E não por insônia...

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Revanche?

Mais uma noite e ela simplesmente não agüentaria. Tentara de tudo no último mês e nada surtiu efeito. Na verdade, efeito surtiu, mas não veio com o resultado esperado. E ela o odiava e o amava simultaneamente. Primeiro o odiava por resistir tanto e segundo o amava exatamente por resistir daquela forma. Apesar de todos os esforços, ela gostava do jogo que jogavam, da maneira desafiadora que ele a olhava, a provocava e quando ela começava a ceder e provocar, ele desconversava, provocava, desconversava de novo e só fazia sua vontade aumentar, firme e forte em sua promessa, em seu propósito. Torturando-a.
Naquela noite, porém, ela estava um tanto quanto decidida. Já havia algumas noites mal dormidas, em que seus braços eram afastados do peito dele e, enquanto ela se debatia na cama, ele ria e apenas observava. Depois dava-lhe um beijo e lhe desejava um boa noite debochado. Até chegou a tentar psicologia reversa, parando de provocá-lo, esquecendo-se de que quem tinha poder psicológico entre os dois era ele, e não ela. Idéia inválida. Desistiu.
Chegou da rua e deixou suas coisas de lado. Trocou de roupa e colocou o pijama. O olhou de cima a baixo na sala e não deu uma palavra sequer com ele, apenas o cumprimentou quando entrou. Sem beijo, sem abraço, sem nada. Foi até a cozinha e pegou um copo de água, voltando pra sala logo em seguida, onde ele permanecia sentado, assistindo à televisão. Apenas a olhou de canto e ela sorria maliciosamente, mas de uma maneira diferente, segurando o copo de água em uma das mãos, o observando sem desviar os olhos e, por vezes, tomava um gole de água. Intrigado, então, perguntou o seu tão famoso “O que foi?”, abrindo um sorriso pequeno no canto dos lábios e apertando os olhos, desconfiado do que poderia estar se passando naquela mente fértil que só ela tinha.
Ela abriu mais o sorriso, terminou de tomar a água que havia no copo e anunciou que a greve agora era dela, sentindo-se completamente vencedora, crendo piamente de que a vitória era dela e agora quem sofreria com isso seria ele ou que, ao menos, sua tortura acabaria. Ele, porém, com toda a sua ironia, revidou:
- Justamente agora que não estou mais em greve, tsc.
O sorriso desapareceu de seu rosto, dando lugar a uma expressão séria. Arqueou uma das sobrancelhas e abriu a boca como se fosse dizer algo, mas não o fez. Engoliu a seco, desencostou da parede e caminhou até a cozinha pisando firme no chão. Colocou o copo sobre a pia de uma maneira brusca, a ponto de fazer com que o som ecoasse por outros cômodos, enquanto ele ria baixo na sala da reação que ela havia tido. Saiu da cozinha da mesma maneira que entrou, apagando a luz. Passou pela sala e não desviou os olhos em direção ao sofá. Ele, por sua vez, conteve o sorriso enquanto ela passava e a seguiu com os olhos até ela entrar no quarto, voltando-se novamente para a televisão.
Alguns minutos depois ela estava de volta à sala. Inclinou-se sobre ele, entrando em frente à TV, tirou o controle de sua mão e desligou a mesma. Ele apenas a seguiu com os olhos e não retrucou ou se esquivou.
Aquela noite passaram no sofá.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Before dying.

Todos dizem que antes de morrer nossa vida toda passa diante dos olhos num piscar de olhos e refletimos sobre tudo o que aconteceu em poucos segundos, causando arrependimento e dor. Dizem também que as pessoas, ao se arrependerem, purificam-se, e por isso se santificam depois de mortas. Mas a única coisa na qual consigo pensar é no dedo dele no gatilho, meus olhos não desgrudam do cano da arma e nem ao menos chorar consigo. Estou completamente estagnada. Parada com uma arma apontada pra minha cabeça, bem entre os meus olhos. E todos os meus sentidos parecem mais aguçados, meu coração é como um tambor batendo dentro do peito e eu sinto ele palpitando em todo o meu corpo. Posso sentir até mesmo o sangue correndo pelas minhas veias. Sangue esse que não vai demorar a se derramar se ele puxar esse gatilho.
Não estou revendo toda a minha vida, ela é longa e eu não lembro de tudo o que fiz ou deixei de fazer. Fiz tanto e ao mesmo tempo tão pouco. Deixei de fazer, refiz, cometi erros antigos e novos erros. Pedi perdão e fui perdoada. Beijei, abracei, fui beijada e abraçada. Confundi nomes, idades, esqueci datas de aniversário e chorei nos meus aniversários. Fui criança, subi em árvore, tive medo de escuro e de altura. Medo do bicho-papão e da Cuca. Assisti à filmes de terror, comédias, romances e chorei com eles. Chorei muito, ri muito, trabalhei pouco, estudei menos ainda. Alcancei objetivos, mas não todos. Não penso que tenho muito ainda pra viver, talvez esse seja meu fim, e estou conformada com isso, com todos os sonhos que vão por água abaixo se o dedo dele apertar esse gatilho.
Pensei em coisas boas, mas e as coisas ruins? E a tristeza que causei? As pessoas que fiz chorar? Que magoei? Que fiz esquecer e abandonei? E todas as palavras de carinho que eu podia ter dado e não dei? Os abraços que deixei de entregar ou beijos que neguei? O que vai me fazer pura daqui pra frente? E se eu não me arrepender, será que vou pro céu mesmo assim? Será que existe realmente um céu destinado às boas pessoas? Mas o que são boas pessoas? Alguém soberbo que doa uma quantia em dinheiro todo mês pra alguma instituição pra mostrar-se melhor que os outros? Isso é ser bom? Se for, eu não sou boa. Não dividia meu dinheiro. Dar esmola na rua, conta? Se contar, então fiz coisas boas. Dar dinheiro é fazer algo bom? Se for, presidentes que distribuem bolsas “não-sei-o-quê” são santos, mesmo roubando milhões daqueles que não têm condições. Isso é tapar o sol com a peneira. Não há pessoas boas ou ruins, não há certo ou errado. Pessoas são medíocres, agem de acordo com a situação. Se tem de ser boa, será boa. Se tem de ser ruim, será ruim.
Bondade e maldade enlatada. Porque novelas dão ibope? Porque é bom ver a desgraça do próximo. É melhor ver a desgraça do próximo do que amar seu semelhante. É melhor comer a mulher do amigo do que não desejar a mulher do próximo. Somos gulosos, invejosos, preguiçosos, vaidosos. Vivemos irados com engarrafamentos e só não mandamos nossos patrões pra alguns lugares não favoráveis porque somos egoístas e orgulhosos demais pra perder aquilo que nos sustenta e admitir que, apesar de tudo, gostamos. Ou desgostamos. Muitas das coisas que fazemos ao longo da vida, gostamos? Ou fazemos porque a maioria faz? Ouvimos pra mostrar que não somos deslocados. Vestidos porque caiu bem no corpo do amigo. Elogiamos com a vontade de ser igual e com a veia da inveja pulsando para que a pessoa tropece na primeira pedra, só pra satisfazer o nosso desejo doentio de vê-la por baixo.
E qual é o desejo dele? Isso, pra ele, é me ver por baixo? Por que eu? O desejo dele é ver sangue? É levar aquilo que eu tenho de valioso? Minha vida é valiosa pra ele? Não me importo se ele puxar o gatilho. E não vou me arrepender pelas coisas que fiz, tudo foi meticulosamente programado e provavelmente, em outrora, eu já me arrependi. Eu nem ao menos sei se isso vai me salvar. Salvação... Não sei se acredito nela. Talvez o meu destino seja a reencarnação. Ter a chance de me redimir de tudo de errado que eu fiz nessa vida. Ou talvez a minha alma fique vagando por ai durante a eternidade. Posso também virar um anjo e dormir sobre as nuvens, soprar coisas boas na cabeça das pessoas. Posso virar uma diabinha também, e soprar no ouvido dele pra atirar em mim.
Só se passaram alguns segundos, meus olhos continuam fixos no cano da arma enquanto eu penso em milhões de coisas ao mesmo tempo. E é tudo tão confuso e claro. Certo e errado, bom e ruim. Tudo é nada, e nada me satisfaz. O tudo é confuso demais e eu me sinto aliviada, pois talvez eu não precise mais lutar pelas coisas que eu desejo. Ele começou a caminhar pra trás, levando minha carteira, relógio, bolsa e colar. É isso então? É assim que termina? Ele não vai me dar aquilo que eu tanto queria? Uma libertação talvez? Não. Ele simplesmente foi embora. Me deixou com as minhas perguntas, minhas antigas ambições, minha falta de vontade de levantar ou concluir tudo o que eu havia planejado para minha vida. Agora eu faço o quê? Levanto e sou hipócrita o suficiente pra viver alucinadamente e aproveitar ao máximo a minha vida? Eu só queria que ele tivesse puxado o gatilho e me libertasse de todas as minhas questões.
Volto, agora, a ser a pessoa ambiciosa de antes, machucando alguns, dando esmola para outros. Seria mais fácil não ter de fazer escolhas, porém a vida seria sem graça. Uma pena meu chocolate ter ficado dentro da bolsa.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

The right guy.

Sabe quando o sol bate no rosto daquele cara que se destaca no meio da multidão e você pensa "é ele"? Porque os olhos dele reluzem mais do que qualquer letreiro que esteja ao redor, os cabelos dele parece que brilham e esvoaçam com o vento. A camisa que ele veste parece que foi feita na medida, o nariz dele desenhado e os lábios quase que irresistíveis. Então você tem certeza de que é ele, de que poderia passar o resto da vida com ele. Tem certeza de que é amor à primeira vista e de que ele é o cara perfeito. Quando, na verdade, está absolutamente enganada. O cara perfeito é aquele que estava ao lado, que pode não ter os cabelos tão brilhantes e os olhos tão verdes e reluzentes; é aquele que usa óculos, tem os cabelos meio encaracolados e pretos, é alto, magro e tem o sorriso mais encantador que já viu. É aquele que vai te fazer sentir feliz com um simples sms no meio da madrugada, que vai segurar sua mão e vai te dizer pra não ter medo antes de dormir ou quando a luz acabar. Ele vai saber a hora certa de dizer que te ama, vai amá-la pelo que é e não pela sua aparência. É aquele que vai pensar em você antes de dormir e na hora que acordar. Que vai pensar em você ao longo do dia e sorrir bobo ao receber um torpedo quando ele estiver dentro do ônibus. O cara certo, você não vai achar só porque o sol bateu nele no meio da multidão e ele olhou pra você com os olhos cerrados, como se quisesse vê-la melhor; sendo que isso era só pra que a luz não doesse tanto nos olhos dele. Quando o cara certo chegar, você não vai perceber, porque ele vai fazer de tudo pra esconder, chegando até a ser um pouco frio e haver algumas discussões entre vocês, pois talvez ele tenha medo de dizer tudo o que sente ou tenha que pensar melhor se realmente é pra sempre por medo de te machucar, porque você vai ser a garota certa pra ele. O cara certo vai te conquistar aos poucos, sem que perceba. E num ataque de ciúmes vai se declarar, te fazendo ficar completamente caída de amores. Mesmo que ele tenha uma namorada e você esteja com aquele cara que você achava que era o certo. E então você vai perceber que aquela "queda" que tinha por ele antes era, na verdade, um sinal de que ele sim era o cara certo, mas que você custou a perceber. Vai realizar de que o outro não passa de alguém extremamente egocêntrico e indiferente a tudo aquilo que você sente. E o melhor: vai descobrir que é tão apaixonada pelo cara realmente certo quanto imaginava, mesmo que seja tomada pelo medo de deixar aquele que achou no meio da rua.
E então ele vai fazer todo o medo ir embora toda vez que dizer que te ama, vai fazer seu coração disparar todas as vezes que ele disser, mesmo que sejam seguidas. As borboletas vão aparecer no estômago quando se virem e as mãos vão suar, mesmo depois de dez meses juntos. Você ainda vai se pegar sorrindo ao ler os torpedos que não apagou do celular mesmo depois de dez meses; vai sonhar ainda com o primeiro sorriso trocado. Vai se sentir mais perto dele quando jogarem um simples jogo juntos, por mais próximos que já estejam, o simples fato de estarem fazendo juntos, os juntará mais. Vai ver jogos de futebol por ele e gritar gol no meio da noite, mesmo que ele não esteja por perto. Vai querer vê-lo dormir e se afogar no travesseiro, pois ele dorme com a cabeça enfiada nele. Vai chorar de felicidade quando perceber que quer ele por perto pra sempre, que aquele poema que em outrora não fazia sentido, hoje faz menos ainda, porque o amor que sente é maior do que foi colocado em palavras com versos decassílabos. Esperará pacientemente pela hora em que ele chegar e sentirá saudades quando não o vir por um dia. Vai chorar de saudades, chorar de alegria, chorar ao dizer que o ama, chorar ao pensar em vocês dois juntos; talvez fique treinando expressões faciais no espelho quando tiver de falar algo pra ele, e então cairá na risada, porque não vai usar nenhuma delas. A única coisa que vai usar é seu melhor sorriso pra ele, porque ele merece todos os melhores sorrisos, todos os melhores beijos e os mais apaixonados, os abraços mais apertados e as lágrimas mais sinceras. Os "eu amo você" mais bem ditos ou mesmo sussurrados ao pé do ouvido. Você vai sentir que o amor, tanto da sua quanto da parte dele, só cresce a cada dia e ele vai ser perfeito só no "eu te amo", porque é isso que vai bastar. É só isso que vai bastar pra sempre, e sempre mais. E é ele quem você vai querer ao seu lado pelo resto dos seus dias. Esse é o cara certo.



You're my right guy, G.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Do not disturb...

Esquisita sempre foi o primeiro adjetivo atribuído a mim. Depois melhoravam. Alguns me achavam bonitinha. Às vezes ouvia algum maluca. Anti-social. Nerd. Mas o que eu mais ouvia, eram risadas. Risadas daqueles pobres coitados que hoje estão abaixo dos meus pés. Literalmente.
O primeiro foi Joey. Ele era o mais insuportável e idiota de todos. Uma daquelas pessoas que não merecem pisar na terra. Ele merecia virar grama, e eu tenho certeza de que fiz um favor a sociedade quando o matei. Não o via há anos, desde o colégio. Desde aquela última vez que ele apontou o dedo na minha cara e riu de mim. Não preciso entrar em detalhes sobre o porquê dele ter rido. Era um motivo babaca. Babaca como ele. E a última vez que o vi, o idiota me passou uma cantada barata. Obviamente ele não sabia quem era eu e o quanto esperei pra encontrá-lo. Eu não tinha planejado, na verdade. Nunca tinha pensado que faria tal coisa, mas sempre fui tão vazia. E quando eu ouvi as palavras saindo de sua boca, daquele jeito que só ele saberia falar e com a língua presa, não tive dúvidas de quem era. Sabe, as pessoas evoluem. Pessoas mudam. Eu mudei. Não nego que era um tanto quanto estranha no colégio, mas desde quando isso é motivo para que babacas como Joey simplesmente se aproveitem disso para fazer graça sobre o meu caráter? Foi engraçado, porque quando eu perguntei se ele tinha um último desejo, ele riu. Achou que era uma brincadeira. Ao menos ele morreu sorrindo, não?
Você deve estar se perguntando como o matei. Na verdade, foi algo demorado, e creio que ele tenha morrido de dor, ou de tanto sangrar. Pois quando eu achei que tinha acabado e ia fazer o meu grande final, ele já não respirava mais. Fraco, morreu durante a tortura. Só me arrependo de tê-lo amordaçado. Eu devia ter ouvido os gritos de dor antes de acabar com ele, ou a cada corte.
Mas, enfim... Quem veio depois foi Cassey. Sim, isso é irônico, o nome de ambos terminam com as mesmas letras. Eles eram namorados no colégio, e não teve um garoto com quem ela não foi pra cama. E não pense você que isso é ciúmes ou inveja, isso é simplesmente nojo. Ela me dava asco, me fazia querer vomitar. O tipo de garota que não prestava nem pra ter peitos ao invés de cérebro. Essa eu fiz questão de ir atrás. Não quis esperar que o destino me levasse até ela. Embora não tivesse quase seios, foram a primeira coisa que tirei dela. Me arrepio enquanto conto pra você, porque a vadia achou que eu tinha algum fetiche estranho. Ela fazia programas com homens, mulheres, só casais... Achou que eu era só mais uma cliente. De que vale ser bonita e não ter um cérebro? É dessa maneira que uma mulher assim acaba: como uma prostituta morta de 29 anos.
Não, errou. Eu sou um ano mais nova que ela.
Depois vieram mais alguns... Mathew, Audrey e Lucas. Não tenho arrependimento por nada, por nem uma gota de sangue sequer. Nenhum deles pensou duas vezes antes de nada do que falaram.
Façamos um acordo. Um quarto escuro. Uma cadeira. Sem janelas. Só uma porta. Uma porta sempre fechada. Está com fome. Ouve ruídos mas não tem idéia de onde vêm. Os olhos não notam um sinal de luz. A porta se abre. A luz entra. Uma corrente de ar. E se fecha. Um corpo. À sua direita ou à sua esquerda. Não olhe pros lados. Mais um ruído. Um perfume bom que chega às suas narinas. Um suspiro. E então uma faca passa rapidamente pelo pescoço. Esse é seu fim.
Não diga uma palavra!

sábado, 17 de janeiro de 2009

I dare you!

Ela precisou de apenas um deboche pra virar-se em direção a ele e arquear aquela sobrancelha odiosa que sabia que ele não gostava. O sorriso de deboche sumiu de seu rosto no instante em que ele a viu erguida, aquela única sobrancelha, e soube que pagaria por aquilo, soube que ela faria o impossível pra provar que ele estava errado em relação ao que ele havia dito e isso, na verdade, não o fez recuar, só fez aumentar o sorriso em seu rosto, mas agora numa forma de desafio. Ele soube de tudo isso nos mesmos segundos em que ela soube que ele a infernizaria pra sempre caso ela não aceitasse o desafio e provasse que ele estava errado. Engoliu seco e quase deixou transparecer a sua insegurança quanto ao que faria.
Então ela ameaçou pra disfarçar. Aceitando o desafio ela disse que ele não perdia por esperar. Novamente o sorriso odioso de deboche apareceu em seu rosto, como se ela não fosse capaz de fazê-lo. Não sabia se o odiava por isso ou se a fazia amá-lo mais. Deu de ombros e o deixou com o sarcasmo inflado dele sozinho, enquanto ela caminhava para uma longa noite de sono na cama. Ou não.
As palavras dele em tom de desafio, que foram poucas, cinco ou seis; ficaram em sua mente, martelando o tempo todo, desde a hora em que ele disse, até a hora de escovar os dentes pra cair na cama e dormir. Faziam com que ela tivesse de espremer seu cérebro, o qual ele duvidava que ela tivesse, até ter uma idéia brilhante. Não dividiu o banheiro com ele na hora de escovar os dentes como todas as noites, fez questão de sair antes e deixá-lo com a pulga atrás da orelha ao dizer que já sabia o que faria, quando, na verdade, não tinha idéia. Mas ela sabia que isso lhe causaria certa preocupação, pois se ela conseguisse, ele teria de se desdobrar e espremer o cérebro do qual ele tanto se gabava em ter.
Mais um pouco de enrolação e finalmente dormir. Ou não.
Ela não se virava muito na cama, pois sabia que se o acordasse ele faria alguma pergunta a respeito, sabia que ele saberia que ela estava preocupada em não conseguir fazer o que ele havia destinado que fizesse. Levantou-se, enfim, não agüentando o calor infernal. Olhou-o por um tempo estirado sobre a cama e pensou por um instante. Um sorriso nasceu em seu rosto e correu na ponta dos pés até a sala. Trouxe dela o notebook que estava sobre a mesinha de centro e sentou-se bem devagar na cama, tentando ao máximo não fazer barulho ou movimento suficiente para que ele acordasse. Embora seus esforços tenham quase ido por água abaixo quando o windows iniciou e tocou a musiquinha irritante. Ele se mexeu sobre a cama, enfiando a cabeça no travesseiro e ela riu baixo, pois sabia que a qualquer momento ele se afogaria.
Abriu o Word. Fonte Arial, tamanho 10. Às duas e quatro da manhã teria terminado de escrever se o programa não tivesse dado erro. Queria berrar. Entrou em desespero quando viu que o arquivo não havia sido salvo. Como provaria que havia escrito se não tivesse o texto em mãos? Por alguma razão inexplicável, foi fuçar na lixeira e, por outra razão inexplicável, o arquivo estava nela. Respirou aliviada ao ver que não tinha perdido seu tão precioso trabalho e sorriu novamente, dando mais uma olhadela para o lado. Salvou o arquivo e desligou o notebook, deitando-se com a barriga pra baixo e um sorriso no rosto. Espero que ele tenha uma idéia tão brilhante quanto a dela. Dormiu, finalmente.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Trivial.

Eu estava sentada quando ele chegou. Trazia algo na mão, algo que eu não consegui decifrar o que poderia ser. Era de manhã, por volta das 7 e 30, mais ou menos. Estava chovendo bem fraquinho na rua e, conforme os carros passavam, eu podia ouvir o barulho das rodas quebrando as gotas de chuva. A porta anunciou sua chegada com aqueles sininhos de lojas pequenas e, rapidamente, desviei os lábios da minha xícara de café e levantei os olhos para a porta, vendo a sua entrada.
Estava frio, ele estava pálido e seu sobretudo tinha até algumas gotas de água nos ombros. Eu não sei descrever a sensação que eu senti quando vi aqueles enormes olhos negros passearem por entre as mesas. Foi simplesmente como se meu coração tivesse parado, o único som que eu ouvia era da respiração dele e não conseguia desviar meu olhar daqueles imensos olhos negros que pareciam me chamar pra perto. Meu café deixei de lado, já não tinha mais vontade e, toda a doçura que ele transbordava, parecia torná-lo totalmente amargo.
Então abri minha bolsa e ouvi novamente o barulhinho do sino da porta. Olhei pra ver se era ele que havia saído, mas não, felizmente ele ainda estava sentado no balcão, tomando um capuccino, eu acho. Só me lembro que havia uma espuma branca sobre ele e parecia bem quente. Cruzei minhas pernas embaixo da mesa e continuei a procurar incessantemente papel e caneta dentro da bolsa, por alguma razão, me deu uma vontade imensa de escrever, e também não sei exatamente o que senti naquele momento.
O meu café já estava visivelmente frio sobre a mesa e o jornal estava meio umedecido devido ao tempo frio e chuva que fazia. Havia tanto tempo nós, e eu nem ao menos poderia imaginar o que ele estaria fazendo da vida. Fora apenas uma noite e eu soube de toda a vida dele e fiquei completamente rendida, porém não o suficiente pra passar o meu número de telefone ou nome. E o dele? Ele passou, porém nunca liguei. Me apresentaria como? A garota do bar da noite passada? Não cai bem pra mim, pareceria certamente vulgar me apresentar assim. E talvez ele nem ao menos se lembrasse de mim. No café, tenho certeza de que ele nem ao menos havia me notado; também, como poderia? O deixei arfando sobre a cama e fui embora sem dar explicação alguma.
Achei, finalmente, o papel e a caneta, mas já não os queria mais, o celular dentro da bolsa me chamou mais a atenção. Olhei-o rapidamente e voltei os olhos pro celular. A essa altura você certamente já imagina o que eu fiz, não é? O celular vibrou no bolso dele. Rapidamente eu desliguei e disfarcei. O vi olhando pra todos os lados do café e peguei a minha xícara na mão, levei-a até a boca e tomei um gole daquele café horrível e gelado, fingindo ler a notícia principal do jornal. Não vi se ele parou os olhos em mim ou não, estava sem coragem de olhá-lo e com uma vontade quase incontrolável de rir. Precisava ir ao banheiro, logo seria a hora de sair pro trabalho, o café da manhã acabaria em alguns minutos.
Então coloquei a bolsa no ombro e me levantei, passando por ele. Fiz questão de respirar fundo e sentir o perfume dele, que ainda era o mesmo daquela noite e que ficou impregnado no meu corpo durante um bom tempo. Porém, continuei andando, embriagada pelo seu perfume. Uma ajeitada no cabelo era tudo que eu precisava. Ajeitei o cachecol em volta do meu pescoço e sai do banheiro, indo ao balcão pagar minha conta.
Mas algo realmente inusitado aconteceu. Sabe aquelas coisas de filme que pensamos que nunca vai acontecer conosco? Pois bem, aconteceu: ele levantou quando eu passava por trás dele e esbarrou em mim. Segurou meus braços pra eu não caísse, com força e ficou me olhando nos olhos. Abriu um sorriso e só disse em tom baixo um "você...", que logo foi esquecido quando os lábios dele vieram até os meus. Aqueles lábios quentes e que tinham um gosto doce. Eu acertei, ele realmente estava tomando capuccino.
Quando os lábios dele desviaram dos meus, apenas sorri e estendi a mão, apresentando-me, diferente da última vez. Paguei minha conta e em seguida ele pagou a sua. Provavelmente ele ficou me procurando no café quando virou-se. Se ele tivesse prestado atenção no barulho do sino da porta, teria corrido atrás de mim. Era melhor levar apenas a lembrança dos doces lábios com gosto de capuccino do que levá-lo para a cama novamente. Estava atrasada para o trabalho.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Like sugar..

Estava tudo tão calmo e ao mesmo tempo tudo tão barulhento. Ela podia ouvir os fogos de longe e ao mesmo tempo sua respiração calma e lenta. Seu sorriso era largo e brilhante, e era como se a cada vez que um fogo de artifício estourava no céu, sentia cócegas em sua língua, o que a fazia sorrir; como aqueles pacotinhos de açúcar que explode na boca quando chupados com pirulito e que as crianças gostam tanto. Então, aqueles... Explodiam no céu de sua boca e o riso saía alto de sua garganta.
Meia noite. Garrafas estourando, risadas ao fundo, mais fogos de artifício. Latidos, conversas. "Feliz ano novo", todos desejavam. A TV ligada e, ainda assim, com todo o barulho, ouvia nitidamente o bater do seu coração, era como se ele chamasse por algo, mas ninguém além dela podia ouvir, e ela mesma não poderia fazer nada pra mudar aquilo. Ainda assim, sorria. Não podia querer nada melhor, nenhum outro alguém ao seu lado além dele. Quem dera...
Bebeu três copos, mas não fizeram efeito, só algumas palavras tortas e mal faladas, nada além disso. Nem uma gota além das que caberiam naqueles três copos, que foram enchidos na medida certa nas três vezes.
Os minutos passaram, um 'te amo' foi solto no ar em meio a um segundo e outro, uma gagueira, um choro de saudade do que não se tinha e ao mesmo de alegria do que se tinha. Dormir. Não havia mais nada a fazer. Todos os rostos já haviam sido beijados e os lábios que deveriam ser ficaram em falta. Porém dormiram abraçados, com a promessa de um ano melhor. Ela e o travesseiro e uma lágrima que escorreu pelo seu rosto. Feliz ano novo! Esperam.



Ps: Me atrasei. Mas feliz 2009, escassos leitores! :*

domingo, 28 de dezembro de 2008

Happy Birthday?


Maybe the next year... But thank you to trying.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

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Vazio
[Do lat. vacivu.]
Adjetivo.

1.
Que não contém nada, ou só contém ar:
lata vazia.

2.
Entornado, despejado.
3.
Desocupado; despovoado, desabitado:
região vazia.

4.
Frívolo, vão, fútil:
pessoa vazia.

5.
Falto ou destituído de inteligência:
cabeça vazia; pensamentos vazios.

6.
P. ext. Falto, destituído, desprovido:
Vazios [os artigos], e sempre! de significação, de conceito que os relacione com alguma realidade autônoma de sua materialidade, formal e funcional.” (Jesus Belo Galvão, Palavra e Estrutura, p. 33.)
~ V. categoria —a, conjunto —, denúncia —a e maré —a.

Substantivo masculino.

7.
V. vácuo (2).
8.
Filos. Espaço concebido como um receptáculo plenamente desocupado, com ou sem limites. ~ V. vazios.


Alguém me dá um dicionário psicológico?

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

São tudo pequenas coisas...

Estava sentada. Nua. Quase nua. Não fosse pela blusa vermelha, ironicamente vestida para o natal, e pela calcinha verde. As longas pernas se cruzavam sobre a cadeira na varanda. Um cigarro de cereja queimava entre seus dedos e, na outra mão, um copo de vinho. De morango. Seu preferido.
Sozinha. Natal. Cigarro. Bebida. Vento e tempo de chuva. O céu estava vermelho, em plena 23 e 53 da noite. Alguns raios iluminavam o céu e alguns trovões se atreviam a deixar seu som ecoar por todos os poucos cômodos do apartamento, que estava totalmente aberto. Janelas e portas completamente escancarados. Apenas estava fechada a porta de entrada do apartamento. No mais, absolutamente tudo aberto. Inclusive a porta que ficava atrás dela. De vidro. Calor. Vento.
Alguns fogos de artifício ao longe misturavam-se com os raios enquanto ela dava uma longa tragada em seu cigarro. Embora a maioria dele queimasse ainda entre seus dedos, era só pra variar. Na verdade, era uma forma de diversão. Afinal, o que mais fazer nesse natal se não beber e mudar a rotina? Mesmo que a rotina permanecesse. Algumas ligações não atendidas e torpedos não lidos. Apenas estava só, sem preocupar-se com muito mais do que a chuva que logo chegaria. Descruzou as pernas e as cruzou ao inverso. Largou o cigarro no cinzeiro, apagando-o e bebeu mais um gole de seu vinho, terminando o que havia na taça.

Respirou fundo e procurou seu celular sobre a mesa que estava ao seu lado, deixando o copo sobre a mesma. Mudou para 23 e 59 naquele minuto. Ela sorriu para si mesma, sarcástica. Ouviu o barulho da fechadura e passos. Largou o celular e virou o pescoço até onde alcançava. Acompanhou-o com os olhos até ele se sentar na cadeira que estava ao seu lado. Esticou sua mão e entrelaçou seus dedos aos dela. Fogos e risadas ao longe. Vozes. Meia-noite. Ela inclinou-se sobre ele, que a olhava com um sorriso nos lábios. Deu-lhe um longo selinho estalado e, sem descolar os lábios, com a voz baixa e rouca desejou-lhe um Feliz Natal.
Chuva e um latido.
Quem sabe?


E não é que milagres natalinos acontecem? Até mesmo ao Grinch. Um pouco afeminado, convenhamos.

Feliz Natal!

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Finally?

Encostada na parede, com uma das pernas dobradas e um de seus pés apoiados na mesma; ela estava lá. Esperando. Paciente. Olhando. Procurando. Com medo. Sede. As mãos tremiam e os dedos já não estralavam mais. Sete e cinqüenta e dois bateu no relógio e um frio subiu pela espinha. Abriu a bolsa e olhou o presente dentro dela, com seu papel amassando todo, pela segunda vez. Embora fizesse sol e calor, suas mãos estavam frias e seus lábios partidos e vermelhos, cobertos por uma camada fina de brilho labial. As bochechas rosadas pelo sol do dia anterior, assim como seu decote marcado exatamente no corte da outra blusa que vestira.
Suas mãos procuraram pelo celular novamente no bolso de trás da calça enquanto seus olhos passeavam por entre as pessoas que andavam pelas ruas. Todos podiam sê-lo, assim como nenhum podia. A cada passo nos pés de alguém, era ele que ela via. De todos os perfumes que sentia em cada um, sabia que o melhor seria o dele, mesmo que nunca o tivesse sentido. Seus olhos passaram pelo celular que marcava sete e cinqüenta e oito. Frio na barriga dessa vez.
Os olhos saíram das ruas e puseram-se em seus pés. Na verdade, no nada, mas na direção deles. Imaginou-o ali junto dela, chegando ao pé de seu ouvido e sussurrando bem baixo algo que ela provavelmente não entenderia por causa do nervosismo que a tomaria. Seus olhos encheram-se de lágrimas e um sorriso brotou em seu rosto. Finalmente, pensava ela.
Esperou. Observou. Olhou. Paciente. Procurou.
Alguns passavam pela porta no sentido de entrada ou de saída, e todos a olhavam como quem tinha curiosidade. Quase chegava a ouvi-los perguntando e responderia com um sorriso no rosto, se fosse o caso. Mais uma vez seus dedos entrelaçaram-se, porém, dessa vez, eles estralaram; e ela suspirou.
Novamente esperou. Diferentemente do relógio, que parecia apressar cada vez mais os seus ponteiros, e os minutos pareciam milésimos de segundos. Oito e trinta e cinco. Os lábios e a boca ficaram secos. Os olhos desatentos e já não mais procurando. Dentre todos, nenhum podia e ninguém foi. Nem ao menos ao longe seus olhos o alcançaram e recusaram-se a deixar que as lágrimas se fizessem presentes. Caminhou lentamente na esperança de que seguraria o tempo assim. Procurou novamente. Busca perdida. Em nenhum rosto ele se achou. Nenhum dos lábios eram os seus. Os passos eram de outros pés e os perfumes eram de outros frascos.
Viu novamente o presente voltando pra casa com o papel amassado. Viu-se novamente indo embora sem o seu finalmente. E gritou. Porém ninguém pôde ouvi-la!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Ecos

O cigarro queimava entre seus dedos. Sua mão permanecia imóvel sobre a mesa, apoiada no cinzeiro, onde caíam as cinzas do cigarro que fumava a si mesmo. Suas pernas balançavam lentamente enquanto ele olhava pela janela e via o sol se pondo daquela tarde tão triste de outubro. Uma lágrima insistia em permanecer em seus olhos, mesmo quando a outra mão a limpava, ela voltava e, assim, escorria por sua bochecha rosada morrendo em seus lábios esbranquiçados e secos.
Ele sabia que se acostumaria com a calmaria em algum tempo, mas era o começo e o fato de não haver mais ela o assombrava. A casa parecia maior e o cheio dela ainda estava em todos os cantos, entre as páginas de um livro velho, na maçaneta da porta e, principalmente nos lençóis da cama que ele ainda não havia conseguido tirar. Não queria esquecer seu rosto, não queria almoçar, jantar e tomar café da manhã, sozinho. As mãos dela ainda estavam em seu corpo, nas portas, nos talheres e em qualquer outro mínimo detalhe. Se pudesse deixaria tudo intocado, talvez, assim, seu rosto não fosse esquecido com o tempo e, se as portas permanecem fechadas, talvez o cheiro dela continuasse ali, intacto.
Virou o cigarro entre seus dedos e o apertou no fundo do cinzeiro, apagando-o. Encostou-se na cadeira e mais uma lagrima escorreu pelo seu rosto. Entrelaçou e estralou os dedos, respirando fundo e tentando esquecer que suas tardes ainda seriam dessa maneira por um longo tempo.
Talvez a melhor maneira de superar, não fosse não tocar e sim guardar como uma lembrança boa. Ele levantou-se da cadeira e limpou a última lágrima que escorria pelo seu rosto. Algumas caixas no fundo do quintal foram levadas pra dentro, deixadas sobre a cama. O lençol e as fronhas foram postas dentro de uma das caixas, junto com roupas, brincos, pulseiras e a tornozeleira que ela tanto gostava. Cinco ou seis caixas saíram do quaro cheias, deixando para trás apenas um porta retratos, o da primeira vez que se viram. Estava tão radiante. Ele deu uma última olhadela no quadro e, por alguns instantes, com ele entre as mãos; pensou em levá-lo junto aos outros pertences. Desistiu, porém; pois não queria que o rosto dela se apagasse de sua memória.
Já havia um mês e estava na hora de libertar-se. Deixou as caixas sobre a cama e pegou as chaves do carro que ficavam sempre sobre o criado-mudo. Dirigiu sem rumo por alguns minutos. As ruas estavam estranhamente vazias pra um final de tarde de sexta-feira. Uma esquina, um semáforo. Alguém acena e sorri, um rosto desconhecido e esquecido na memória, mas com aceno retribuído, só não o sorriso. Finalmente o azul do mar se fez presente em sua retina.
Estacionou o carro na orla, tirou os sapatos em seu carro, descendo dele com os pés descalços que de destacavam na negritude da rua. Pegou o maço de cigarro e trancou a porta do carro. A luz do sol começava a deixar o céu alaranjado e o mar não muito diferente. Essa era uma das suas coisas preferidas: ver o pôr do sol, nada o acalmava mais ou o fazia esquecer das coisas como aquela imagem. Tão livre. A água do mar finalmente tocou seus pés cheios de areia, chegando até os joelhos. Seus olhos se fecharam por um instante, o vento batia em sua face trazendo o cheiro do mar. Tirou a foto dela de seu bolso e contemplou-a por segundos que seriam guardados pra eternidade. A foto escorregou de seus dedos e foi levada pelo vento, até cair na imensidão azul. Era esse o seu adeus.
Caminhou até onde as ondas não o alcançariam e sentou-se. Tirou um cigarro do maço e colocou entre seus lábios, procurando o isqueiro que, aparentemente, não estava em seu bolso. Uma mão se estendeu a sua frente segurando um isqueiro cor-de-rosa. Acendeu o cigarro com um longo trago e seus olhos subiram pela mão, braço, ombro, até chegar ao rosto, que trazia um largo sorriso. Ele sorriu e deixou sua vida se iluminar novamente.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Sem fim

"Eu não sei por onde começar...", pensava ela enquanto permanecia sentada com suas lembranças embaralhadas e confusas. Tanta coisa na cabeça, tanta saudade das coisas que nunca viu e tanto desejo de sentir de novo o que nunca sentiu, aquilo tudo que apenas cogitou, sentia saudades de cogitar novamente sem que lhe trouxesse aquela dor que há duas semanas estava em seu coração, que apenas se acomodou, não passou.
"Que tal começar com 'Era uma vez'? Ah, não... Clichê demais e... bem, não faz meu estilo. Mas não vejo começo melhor para aquele dia se não esse..." Começou!
Estava sol e tudo parecia perfeitamente encaixado, como se nada pudesse sair errado ou diferente daquilo que se havia imaginado. O sol estava no céu, o coração batia forte e, por mais barulho que houvesse, nada podia abafar o som de suas palpitações que pareciam mais fortes a cada minuto. Ninguém diria que não seria como ela imaginou, ninguém discordaria de que daria certo, pois nada lhe podia tirar aquilo. Era tudo tão palpável e, num segundo, tudo desmoronou como uma pirâmide de cartas assolada pelo vento.
Ironicamente o sol resolveu se esconder, dando lugar à chuva. Num momento tão sorridente, no outro as lágrimas se misturavam com as gotas de chuva que batiam em seu rosto. Sim, ela estava andando debaixo da chuva, tentando entender porque a única coisa pela qual implorou, não lhe foi dada. Ninguém tinha o direito, mas lhe tiraram, e nada parecia ter sentido. Seus propósitos iam por água abaixo, quase que literalmente; e suas pernas pareciam não sustentar o seu corpo. Seu estômago num nó, a boca seca sem saliva e as mãos geladas como um cubo de gelo, assim como o coração. Era como se ele tivesse parado de bater ao receber seu pombo correio, e ela não o sente mais bater com tanta virtude como outrora.
"É uma pena que nem todo 'era uma vez' termine com 'felizes para sempre'. Não pra mim."

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Everybory loves a clown

O espetáculo começaria só às sete da noite e ainda faltava uma hora para sair de casa, porém, Clarisse já estava pronta. Colocara seu vestido preferido: o roxo; e aquela noite, sem dúvida alguma, seria inesquecível. O céu já estava escuro e as estrelas pareciam brilhar mais do que o normal. A brisa era fresca e tocava os fios negros da garota, esvoaçando-o.
Seria a última noite do circo na cidade e estava prometido à Clarisse que seria o dia mais feliz de sua infância, mas alguém lhe tirou essa promessa quando, entre risos e sorrisos, brincadeiras e conversas; seu braço foi tocado e lhe foi feita outra promessa por alguém com o rosto coberto de tinta, um nariz vermelho e um sorriso amigável no rosto; mas que carregava nos olhos e na alma os piores sentimentos. Era alguém que levava alegria às pessoas, porém, nessa noite, tiraria a felicidade, os sonhos e a ingenuidade de uma criança.
Ele não foi devidamente procurado e não pagou pelo que fez. Simplesmente fugiu, levando consigo a alegria de Clarisse, a bela garota do vestido roxo que um dia sorriu, brincou, teve sonhos, planos e que hoje não fala, não sente, não demonstra e não sorri. Ela ainda está em seu quarto, com os olhos fixos em um ponto qualquer, perdida em algum pensamento, revivendo sua lembrança mais triste. Perguntando-se “por quê?”, deixando o terror transparecer na luz apagada de seus olhos e, por vezes, derramando lágrimas de seus olhos castanhos, que morrem nos lábios que um dia foram capazes de sorrir.
Naquela noite, Clarisse foi roubada e incompleta voltou para casa.



;*


sábado, 16 de agosto de 2008

So long and goodnight...

Seu coração batia tão rápido e forte que qualquer pessoa que passasse ao seu lado naquele momento poderia ouvi-lo, andava tão rapidamente que esvoaçaria o cabelo de qualquer um que estivesse no caminho, e mais rápido ainda passou pela porta do hospital. Meia hora atrás estava deitado em seu sofá, mudando incessantemente os canais da TV enquanto tomava um grande copo de suco de maçã. O celular vibrou no bolso e ele atendeu. Seus dedos no controle remoto não se mexiam e o copo de suco foi parar no chão, derramando o mesmo.
Agora, porém, não havia mais calmaria e ele acabara de passar, quase correndo, por aquelas portas. As lágrimas lhe escorriam no rosto e ele não via nada se não a imagem dela em sua mente, a preocupação tomava conta de seu coração. O medo, a tristeza... Queria que não fosse verdade, não podia ser. Justo naquele dia? Enxugou o rosto, mas as lágrimas não queriam cessar, persistiam em deixar seu rosto molhado, seu coração, que só batia por ela, agora tinha medo de que seu motivo se fosse.
O quarto onde a puseram, como todos os outros, era frio e sem vida. Até aquele momento, já havia enxugado suas lágrimas inúmeras vezes. Sentou-se numa cadeira ao lado de sua cama e colocou suas mãos machucadas entre as dele. Seus lábios estavam levemente cortados, e havia um curativo em sua testa com uma mancha vermelha. Não estava, aparentemente, machucada, porém, a forte pancada na cabeça havia a deixado em coma. Profundo. Quem imaginaria aquele acidente? Ele queria tê-la não deixado sair, porém num dia tão comum como todos os outros... Quem imaginaria?
Era sábado e ela havia saído de casa antes que ele acordasse, por isso, a maçã verde de todas as manhãs de sábado, foi esquecida e já era uma da tarde. Mesmo assim, levantou-se e beijou delicadamente sua mão. Olhou-a por alguns instantes e viu o quão linda era. Seus olhos e suas lágrimas imploravam para que ela não se fosse, pra que cumprisse sua promessa e ficasse com ele pra sempre, porém nada se ouvia além do som do aparelho que a mantinha viva. Deu mais um beijo em sua mão e saiu do quarto.
Alguns minutos depois, ele voltou e trazia nas mãos uma maçã verde. Sentou-se novamente ao seu lado e forçou um sorriso, mesmo com o rosto coberto por lágrimas, como se ela pudesse vê-lo. Pegou suas mãos e colocou a maçã entre as duas. ‘Eu amo você’ foi o que ele disse, em seguida os batimentos cardíacos já não eram avisados pelas máquinas, só ouviu-se um ‘apito’ sem fim, que trouxe junto um grito de piedade.




Música:
Holding my last breath
Safe inside myself
Are all my thoughts of you
Sweet raptured light
It ends here tonight

Evanescence - My Last Breath


Eu voltei. ;*

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Nem tão triste assim...

Era novamente sexta-feira, era novamente frio, era novamente uma noite só. Só, porém não triste. Estava sentada no sofá quase que com as costas, de tão pra frente que estava seu quadril. Foi escorregando no sofá até o ponto extremo que suas pernas agüentariam segurá-la daquela maneira. Mantinha um braço sobre a barriga, o outro escorado no braço do sofá e seus dedos batiam aleatoriamente no mesmo. Há dias que a imagem do homem daquela sexta-feira estava na sua cabeça, presente em sua lembrança. Quanto tempo já fazia? Um mês? Dois? Mais? Não sabia ao certo. Depois de sair daquele bar, apagou muita coisa de sua memória e queimou, literalmente, as roupas que havia usado àquela noite. Aquilo já não a atormentaria mais não fossem algumas ligações e recados na secretária eletrônica. Queria deixar tudo aquilo que viu pra trás, de uma vez por todas.
Felizmente, já não fazia tanta diferença; a não ser por aqueles olhos. Azuis, tão profundos; aquelas pupilas dilatadas que pôde vê-las se retrair ao olhá-lo. Os cabelos castanhos bagunçados que invadiam sua testa e aquelas mãos brancas, aparentemente gélidas por causa do copo de conhaque que segurava. Não tirava essa imagem de sua cabeça. Por mais que tentasse, era inútil. Se tivesse ao menos um telefone...
Arrumou sua franja atrás da orelha com a mesma mão delicada da outra noite, só que as unhas, dessa vez, estavam pintadas de roxo; quase violeta, o que fazia a pele de sua mão parecer mais rosada. Escorregou mais um pouco no sofá e suas pernas não puderam agüentar, o que a fez cair no chão e soltar uma gargalhada alta que ecoou pelo vazio frio de sua casa, por entre as caixas da mudança que estavam espalhadas há uma semana, pegando poeira. Sentou-se no chão com os joelhos dobrados, passando os braços em volta das pernas; e encostou-se no sofá. O brilho de alguma coisa entre aquelas caixas alcançou seus olhos, que ficaram apertados na hora, forçando a vista pra poder enxergar o que era aquilo. Azul. O scarpin, o mesmo daquela noite. Um arrepio subiu pela espinha, o sorriso se desfez em seu rosto e o coração foi parar na boca. Quase pôde sentir suas pupilas dilatarem e abraçou mais forte suas pernas. Seus olhos passearam por toda a sala e a casa pareceu maior e ao mesmo tempo menor, como se não estivesse mais sozinha.
Levantou-se rapidamente e foi em direção quarto, passando pelos scarpins e chutando-os delicadamente mais pro meio das caixas. Despiu-se no caminho do banheiro e tomou um longo banho quente. Vestiu uma calça jeans e procurou incessantemente por uma blusa azul no tom do scarpin; quando estava quase se arrependendo amargamente por ter queimado a antiga blusa, achou, no fundo da gaveta, algo que era suficientemente azul. Abriu um largo sorriso e vestiu-a defronte ao espelho. Gostou do que viu. Colocou cachecol, pegou carteira, bolsa, desligou o celular e jogou-o na cama; passou por entre as caixas e vestiu o scarpin.
Não demorou muito e estava abrindo a porta do bar, do mesmo jeito de outrora: quase duas da manhã, cabelos bagunçados pelo vento, saltos batendo no chão, porém com borboletas no estômago que sairiam voando pela boca a qualquer momento.
O bar não estava tão cheio, pelo frio talvez. Arrumou o cabelo e sentou-se no balcão, no mesmo banco da última sexta-feira. A mesa ‘dele’ era ocupada apenas pelas marcas de copo e uma camada de poeira. Ela respirou profundamente, encolheu os ombros e balançou a cabeça, sentindo como se toda a sua esperança caísse no chão, abrindo um buraco enorme que a puxava para dentro. Pediu um conhaque e bebeu quase tudo num gole só e não demorou a pedir outro. A noite tinha ficado incrivelmente mais fria e, embora quisesse ir embora, não conseguia. Sabia que a única coisa que a esperava era solidão. Rapidamente olhou pra seus sapatos azuis e sentiu a presença de alguém se aproximar e sentar-se no banco ao lado. O pedido era um Martíni.
Riu sozinha e novamente balançou a cabeça, terminando o último gole de seu conhaque. Arrumou a franja atrás da orelha e deixou algum dinheiro sobre o balcão. Virou-se no próprio branco, em busca de um lado livre pra sair e cruzou seu olhar com o da pessoa que havia sentado ao seu lado. O sorriso voltou a seus lábios quando viu aqueles imensos olhos azuis de antes, com os fios de cabelo caídos sobre a testa. Ele devia ser o cara dos olhos mais lindos do mundo que já segurou um Martíni nas mãos...




Palavra de hoje:
Martíni: Substantivo masculino. 1.Coquetel feito com vermute seco e gim, servido gelado e com uma azeitona verde.

Caso não haja entendimento: A mais triste

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Plágio (de novo)

Cansei, de novo. De acordar todos os dias na mesma hora pra fazer algo que é voluntário, porém que é minha obrigação. Cansei de ainda não ter aprendido o francês que tanto queria e meu inglês estar ficando cada vez melhor; deixe-me esclarecer, não cansei do meu inglês ficar melhor, mas do fato de não ter aprendido francês porque ele está ficando melhor, entendeu? Cansei de dizer coisas que sempre levantam questões, pois, na maioria das vezes, tem sentido ambíguo. Cansei de cometer os mesmos erros de outrora e alguns novos, dos quais me arrependo e não posso voltar atrás, de não ter mais tempo e a corda já estar quase me enforcando, um pouco mais apertada a cada dia que passa. Cansei da minha falta de criatividade pra escrever num blog que antes eu escrevia quase que diariamente. Cansei de não ter inúmeros leitores elevando o meu ego e me fazendo querer escrever mais. Cansei de querer escrever mais e mais ainda da idéia nunca sair realmente da minha cabeça, ficar apenas nela, martelando, martelando, até ser esquecida. Cansei de não rever os velhos amigos e não tê-los pra rever. Cansei de ser tão anti-social e mal humorada, de gostar de matemática e não conseguir mais ler um livro até o final. Odiei o fato da Unicamp ser junto da UFPR (isso foi um desabafo). Cansei de ter medo de arrancar meu outro dente do siso e do fato de ele estar doendo cada dia mais. Cansei das mesmas músicas que sempre tocam e das três mil e poucas que tenho no meu computador. Cansei de as pessoas acharem que tenho de ser um modelo de perfeição, mesmo com todos os erros que cometo não poder ser perdoada, cansei de ser humana e errar, pois “errar é humano”, mas ninguém enxerga isso na hora de me cobrar ou apontar-me o dedo. Ah, cansei de novo das pessoas que são patriotas só em COPA do mundo, quero só ver 2014. Cansei dos mesmos programas da TV, principalmente os de domingo, que apelam pra uma emoção barata causando, na verdade, o ridículo (isso é só a opinião de uma garota de 17 anos, não leve em consideração). Cansei de não ter uma biblioteca particular, com todos os livros que preciso e os que quero ler, embora não esteja lendo nada até o fim ultimamente, bem queria. Cansei de ainda não ter completado a minha coleção de livros do Marcelo Rubens Paiva, faltam só dois (Ua: Brari e Blecaute), alguém se habilita a me dar de presente? Dia 28 de dezembro está ai. Cansei de não ter um verme se quer pra ouvir os meus comentários sobre qualquer coisa durante as aulas de cursinho e de fazer cursinho. De existir listas de espera sendo que nem todos serão chamados. Pra quê? Pra causar uma esperança hipócrita de que você pode entrar na faculdade e depois dar de cara no chão quando todas as sete chamadas foram feitas e seu nome não estava entre elas? Fiquei mais feliz quando não vi meu nome entre os aprovados do que na lista de espera. Cansei de “ser vilipendiado, incompreendido e descartado. Quem diz que me entende, nunca quis saber...”. Cansei de escrever sobre as coisas que cansei.



Música:
She is not a drama queen
She doesn't wanna feel this way
Only 17 and tired, yeah... ♪

Beatiful Disaster - Jon Mclaughlin


Eu volto. ;*